"Ritual", Cazuza e Floreios
“Pra que sonhar? A vida é tão desconhecida e mágica, que dorme às vezes do teu lado. Calada.”
Diriam quase todos: Poeta é o ser que vive a poesia. Mero engano.
O homem do belo vive a sutileza ou grosseria das banalidades, tão caladas ou gritantes como vierem. E como lamina afiada a descascar camadas de insipidez, busca no “algo” alguma coisa que transforme o feio em luz. O Poeta físico tange, pisa e roça este mundo insosso, plano, opaco. Vive o tempo e espaço de todos nós, e vive a poesia em paralelo. Faz um mundo seu que é tomado pelos outros ao tentar torna-lo vivente. O que o poeta faz é construir a poesia do que vive. Vive o feio, para tirar-lhe o belo. E faz de um segundo momento a realidade na vivência simbólica ou factual da criação que gestou.
“Até o poeta fecha o livro, sente o perfume de uma flor no lixo, e fuxica”.
O que o poeta vai dizer sobre o “poeta” nestes versos é aquilo que diz ser professado por um Deus tomado como o máximo externo, sem corpo e significado. Apenas significante daquilo que se diz inefável. Não se exclui a figura divina antropomórfica aos que ancoram o abstrato nesta regra, mas se induz a pensar o professor da vida enquanto a cola destas peças que sustentam o escândalo do encontro. Do toque, do amor, da vida, do unir.
“Ao mesmo Deus que ensina a prazo, ao mais esperto e ao mais otário: Que o amor na prática é sempre ao contrário.”
A aspereza das palavras é convite ao profundo da asserção maldita que o poeta objetiva oferecer. Esta oração, em sua agressão benevolente, toma o mundo como fera navalha a humilhar os tolos sonhadores: esta “gente careta e covarde” que "Fica esperando alguém que caiba no seu sonho". O intento é o choque! É preciso doer para que se torne insuportável.
Cazuza tenta convencer em sua in-assumida parcialidade a pobreza e estupidez de aspirar à perfeição da poesia em solo real e odores mundanos. O que se perde é a vida ao se tentar viver um sonho. Pois é do solo que me vem o pão. Deriva longa e tortuosa, mas é a terra que nos traz a rocha industrializada dos nossos altos santuários. Sem que criemos, a areia apenas torna-se areia mais fina.
E por amor à não-verdade. Pela crença à não-mentira. Prossigamos: criemos a contra-idéia desta idéia de beleza oculta ou in-criada. E tão ágeis e feros professemos: ‘Reacionário, impostor!’. ‘Que eu quero o amor dos livros nos gozos mundanos. E eu quero o gozo mundano no prazer dos livros. Uma coisa só e varias, tudo ao mesmo tempo. O que eu experimento no meu sonho e meu sonho em meu experimento’. ‘Que se eu não cuido o coração, que meu descuide ao fígado traga a coerência nesta oposição’.
Tantos poetas tuberculosos! Eu estava errado... mero des-engano. Mas a tentativa vã de viver a poesia os convoca à morte prematura. Paradoxo! É que eles vivem a poesia num paralelo tão próximo que os custa a vida. ‘Eu quero a vida, e vivo o baile. Eu vivo o baile e quero a vida’ A vida é o baile! Oras!
Tornar dos passos o sonho, fazer do sonho a vida. Criar no caos a beleza, fazer do nada o sempre. Sempre feliz: ‘Eu quero!’. Revolucionários estes homens que sonham e morrem pelo sonho. ‘Mas eu não quero o baile, eu quero o sonho, e não existe sonho em vida. Eu quero o príncipe! Eu quero a morte!’.
Sem a certeza da consecução e nem verdade da resignação. Não existe porto seguro: A imortalidade do mártir ou os sorrisos do mais-um-número-estatistico? Mas o suicida não será um mártir! E o imortal sorriu até o ultimo dia!
"Ah, pra que chorar? A vida é bela e cruel, despida. Tão desprevenida e exata que um dia acaba!"
Bela e cruel. O poeta retoma a maestria e dita a máxima do escândalo. O Contra-senso mais sincero, a estupidez mais lógica.
Sem verdades ou mentiras, nego e afirmo: vá viver a vida que ela é bela, ou vá comprar a morte se ela é falsa.
Mas apenas não seja infeliz.
